Get Even é bom? - Um jogo surpreendente nota 7

Get Even mostra como um jogo nota 7 pode ser excelente muito além do esperado!



As notas são justas? O que se ganha jogando um jogo nota 7? O caso de Get Even, jogo de 2017 da desenvolvedora polonesa The Farm 51, é perfeito para esclarecer alguns assuntos importantes sobre a crítica de games. Jogo pouco conhecido de uma produtora que também é pouco conhecida. Get Even está no meio, sendo que alguns apontam muitas qualidades enquanto outros, muitos defeitos ou deficiências. Tanto na crítica especializada quanto nas avaliações de usuários, Get Even é muito elogiado por uns e criticado por outros. O site Metacritic lhe agregou nota 7, tanto de usuários quanto de crítica. Algumas reviews o posicionaram de forma mais favorável, a Game Informer lhe deu nota 8.25, uma nota muito boa, indicando que é um jogo único. O propósito desta postagem não é contestar as notas, mas explicar um certo mistério que volta e meia aparece nas discussões sobre as reviews: Por que alguns jogos que gostamos tanto não recebem nota tão alta (considerando o 7 Metacritic)? E por que algumas pessoas vão concordar com o seu gosto enquanto outras não? Aqui, Get Even é apontado como um exemplo de 7 que excede as expectativas para a nota, os argumentos, no entanto, servem para qualquer jogo na mesma situação.


Além disso, nessa crise que todo jogo novo é muito caro, se você ficar interessado em Get Even e decidir comprá-lo (jogo de 2017), poderá encontrá-lo em uma promoção por um preço bem bacana, especialmente se for na Steam. O jogo também está disponível para Playstation 4, Playstation 5 (retrocompatibilidade), Xbox One e Xbox Series (retrocompatibilidade).


VIDEOGAME E CRÍTICA

A seção Qualidade do Mapa do GamesVida, ainda em seu início, pretende analisar o que faz um jogo ter nota alta, por que recebe tantas premiações, quais os motivos que o fazem ser interessante. No GamessVida, faz parte dessa seção tanto as ferramentas da crítica quanto a paixão do fanboy. Vamos analisar a qualidade de um jogo. Neste caso, veremos um exemplo curioso de nota 7. Curioso porque contém um valor não avaliado de crítica social e simbolismo que transcende o mero entretenimento, chegando mesmo a tratar com muita qualidade de assuntos bem sérios. Poderia até mesmo ser aproveitado em alguma das seções de Educação do GamesVida.


VIDEOGAME E NARRATIVA

Próximo do final da postagem estão cinco temáticas de Get Even que contém importantes críticas sociais de um universo bastante polêmico: a indústria de armas e suas relações. Lembrando que se trata de uma obra de ficção, não acusa ninguém em específico, mas aponta possíveis falhas no sistema social, legal e moral que produzem consequências desastrosas para os envolvidos. Parece inspirada em notícias horríveis sobre crime, sequestro e execução que você deve ter visto em algum jornal, que ocorreu em algum dia e em algum lugar do planeta, pois os casos são muitos. E se tratando de um game, essa história envolvente é contada de forma diferenciada: com colecionáveis, escolhas e participação ativa do jogador. Neste caso, a história é melhor contada por se tratar de um game. E já que mostra o potencial narrativo dos videogames para criar histórias complexas, faz parte também da seção Narrativa do Mapa do GamesVida. Pertencendo, portanto, a duas seções aqui no site: Qualidade e Narrativa.


EXCELENTE ENREDO NOS GAMES

Como dito, Get Even conta uma história de forma diferente de um filme, e em muitos aspectos, melhor do que seria contado em um filme de mesmo tema. O enredo é muito interessante! Fala sobre sequestro, tramas corporativas, indústria de armas, mercenários, espionagem industrial, tráfico ilícito, relações antiéticas, vida pessoal em conflito com a vida no trabalho, violência, execução, traição e polícia corrupta. A história é decidida com um final calibrado pelo nível de violência do jogador, basicamente existe um final “bom” e um final “ruim”. Para chegar no final “bom” você deve se esforçar para jogar de forma furtiva, sem ser detectado e matando o mínimo possível. Se for detectado e sair matando todo mundo, você chegará no final “ruim”. Mas, para além de poder escolher o desfecho do game, característica bastante interessante das mídias interativas como os jogos eletrônicos, todas essas mencionadas tramas polêmicas de enredo são desvendadas com muita riqueza de detalhes, através de um grande número de colecionáveis que, junto com algumas cenas, desdobram todas as controvérsias do jogo.



INVESTIGANDO A MEMÓRIA

Get Even é uma das melhores histórias sobre assuntos relacionados ao universo da guerra, no caso, indústrias de armamentos, dos videogames. Não se trata de uma história sobre alguma guerra, mas de temas polêmicos que tocam próximo a esse universo. Contada de uma forma muito interessante, investigando a mente de um ex-soldado, mercenário, assassino de aluguel, segurança e criminoso: Cole Black. Não somente o tema é interessante, mas a forma como a história é narrada: com toques de Arte e simbolismo profundo. O dispositivo Pandora / Savant permite investigar a memória, neste caso: a memória de eventos traumáticos.


Procurando recordar algumas cenas, sabendo que a memória engana, peça por peça será analisada e reanalisada. Se a investigação for boa o suficiente, chegaremos a alguma conclusão. Se investigarmos mais, saberemos mais. Além dos momentos em que eventos passados procuram ser recriados, mas com algumas distorções, temos também momentos de puro simbolismo e sugestão audiovisual em um sanatório, que serve de espaço a ser percorrido entre as memórias. Mas não somente a mente de Black será investigada, um outro personagem, igualmente problemático, também terá suas memórias e seus traumas revelados pelo dispositivo Pandora / Savant.


PONTO FRACO DE GET EVEN

Talvez o maior ponto fraco de Get Even, aquilo que tem lhe rendido muitas críticas de usuários e ressalvas em relação ao seu público alvo é que apesar de pertencer ao gênero FPS (tiro em primeira pessoa), aqueles que compraram o jogo (em 2017) com a intenção de desfrutar de tiroteios de alta qualidade se sentiram um tanto desapontados. E até mesmo desencorajados, por avisos durante o jogo, a atirar. Que tipo de FPS é este que desestimula a atirar? É verdade que há momentos em que um lunático corre na sua direção segurando uma barra de ferro com a intenção de te matar. Neste momento não há escolha, você atira. Mas em muitos outros momentos você pode optar pela furtividade, passando despercebido e sem violência. Quando eliminar ou passar furtivamente sem matar é uma escolha, Red (um homem misterioso que te passa instruções) vai dizer que você não deve perturbar a memória com matança desnecessária. Pois isso distorce a investigação, não conseguindo o final “bom” que esclarece melhor as interrogações da história. Sair atirando em tudo, algo que é esperado em um FPS, não é bem o objetivo deste jogo.


FOCO EM NARRATIVA

Acontece que Get Even não é apenas um jogo de tiro. Mais importante ainda que mecânicas típicas de FPS (tiroteio), trata-se também de um jogo de investigação em formato de thriller psicológico com atmosfera de terror. Navegando por memórias, você deve desvendar um enredo complexo e não linear (não segue a ordem cronológica dos fatos) sobre um sequestro. Quem era a garota? Por que você estava lá? Quem planejou o sequestro? São algumas das perguntas que você tentará responder. Mas, embora o sequestro seja o tema central, que une tudo, as outras temáticas mencionadas nesta postagem compõem uma narrativa incrível de temas polêmicos. No seu conjunto, Get Even trata de muitos assuntos interessantes. Sendo um videogame, essa busca por respostas será realizada de forma diferente de como seria em um filme ou uma série. Colecionáveis poderão revelar todos os pormenores dessa trama de pessoas complexas e verossímeis (parecidas com o real). Mas os colecionáveis só revelarão se você os encontrar.



CONTAR HISTÓRIAS NOS GAMES

Este é um jogo de história excelente em que as escolhas têm consequências. Além disso, em determinado momento, o jogo fará um perfil psicológico do seu personagem baseado nas suas ações. Se você matar demais, os dados necessários para a investigação estarão corrompidos. Se coletar todas as evidências, poderá assistir a pequenas gravações com informações adicionais sobre alguns pontos chave da trama. Se jogar de modo furtivo com pouca matança será recompensado com o final “bom”, mais satisfatório. Sendo um jogo, chegar a conclusões satisfatórias depende das suas escolhas, modo de jogar e habilidade em encontrar evidências. Get Even é um belo exemplo de como os videogames podem contar histórias incríveis de forma diferenciada.


GET EVEN É UM BOM FPS?

Se o seu objetivo for jogar um jogo de tiro dedicado, você até terá um pouco, mas outros jogos fazem tiroteio melhor do que Get Even. Aqui, você até pode atirar e conta com boas armas para tal, mas o forte está na forma como você se envolve com a narrativa. No entanto, se tratando de um jogo, para jogar de forma diferente, você pode perfeitamente experimentar a variedade de armas, sair matando e corrompendo os dados de propósito, só para forçar o final “ruim” e ver no que vai dar a variedade de escolhas. O jogo apresenta, em uma sala dos quadros de investigação, o recurso de seleção de capítulos, você pode, portanto, reescrever qualquer uma das memórias. É bem fácil, portanto, retornar para uma fase anterior e mudar as escolhas e o jeito de jogar. Esse recurso é muito bom para quem quiser a platina (todos os troféus / conquistas) que pede tanto o final “bom” quanto o “ruim”. Vale também para ver as alterações no jogo. Get Even pode conter bons momentos de tiroteio, mas o forte é a narrativa.


GUERRA E TECNOLOGIA

Tendo a rivalidade entre indústrias de armas como um de seus temas, Get Even toma inspiração no desenvolvimento da tecnologia bélica para algumas de suas mecânicas de gameplay. Para a furtividade, você poderá aproveitar de um mini mapa no seu smartphone, indicando a localização do inimigo e seu campo de visão. A CornerGun, um dos equipamentos mais característicos do jogo, permite mira periscópica, você pode mirar em visão térmica pelo smartphone, em total segurança, sem se expor, completamente escondido na cobertura. Infelizmente, a CornerGun nem sempre funciona como o esperado, muitas coberturas estão em terrenos bastante acidentados, ficando difícil se posicionar para um bom aproveitamento da arma. Para aproveitá-la, muitas vezes, você terá que aprender a adaptá-la. Esse problema deve ter tirado alguns pontos na hora de dar a nota para o jogo. O smartphone também ajuda na coleta de evidências, quando o controle vibrar detectando algo, é hora de investigar.



ALGUNS PROBLEMAS

Outro ponto fraco que a crítica tem apontado para diminuir a nota de Get Even é que para um jogo de 2017, seus gráficos estão datados, embora a ambientação de thriller psicológico com toques de terror seja boa e a parte sonora seja um ponto alto do jogo. O design dos personagens, especialmente dos rostos, não é muito bom, sendo inferior a muitos jogos da época. Um segundo ponto fraco é que a falta de um botão de pulo ou qualquer outra forma de passar por obstáculos faz com que a mobilidade seja comprometida mesmo quando, o que nos impede de atravessar, é um obstáculo mínimo como um tronco de árvore ou uma caixa. Outros jogos solucionam esse problema com algum comando de passar sobre o objeto. Um terceiro problema é que, embora exista explicação no enredo, o fato dos inimigos se desintegrarem quando você os elimina pode incomodar alguns jogadores - fica a impressão de que eles simplesmente desaparecem. A explicação no enredo é que a memória é reescrita sem eles, seus dados simplesmente somem.


GET EVEN NO SISTEMA DE NOTAS

Como dito no início desta postagem, a questão aqui não é dar nota ou questionar a nota, mas esclarecer por que certos jogos que gostamos tanto não recebem nota tão alta. Get Even está aqui como um exemplo excelente para falar deste assunto, mas a regra serve para qualquer jogo de nota mediana. Como vimos, Get Even tem sua nota descontada por conta de alguns problemas e por ter apelo restrito a certo público. Para compreender o que as notas significam, vamos nos apoiar no sistema de notas da Game Informer, uma das revistas mais importantes que faz análise de games há mais de 30 anos. Get Even não recebe nota 10 porque não é um jogo perfeito em praticamente todos os aspectos, critério para essa nota. É inovador, mas talvez não seja a escolha ideal para todos, o que lhe rende uma nota mais baixa. Sua qualidade, embora admirada por muitos, é motivo de debate tanto entre a crítica especializada quanto entre os usuários gamers. Isso o coloca entre os jogos bons para certo público, nota 7 no agregado do Metacritic (71 de 100 para ser mais exato).


Para mais informações sobre o que as notas significam acessar o link: Sistema de Notas da Game Informer. Lembrando que essa mesma revista lhe reconheceu mais, 8.25, portanto, discordando de muitas reviews. A Game Informer escreveu sobre Get Even: “um título de ação e aventura com bom ritmo que equilibra diversos elementos para criar uma experiência ao mesmo tempo empolgante e inesperadamente comovente.” Para propósito desta postagem, eu preferi apontar o 7 do Metacritic, pois se trata de um conjunto maior de reviews, mais avaliações agregadas. Lembrando que, se na faculdade ou na escola, a nota 7 possa ser bastante satisfatória, no mundo dos games é diferente, muitas reviews descrevem uma nota 7 como um jogo decente, mas mediano, sem nada de especial, nada que você não tenha visto em outro lugar.


O QUE AS NOTAS NÃO CONTAM?

Respondendo à pergunta: Por que alguns jogos que gostamos tanto não recebem nota tão alta ? E por que algumas pessoas vão concordar com o seu gosto enquanto outras não? A questão é que Get Even é muito forte em um conteúdo que não é avaliado no sentido de agregar (aumentar) a nota. O jogo tem um forte apelo, seja subjetivo, ou até mesmo objetivo que extrapola as expectativas de um jogo nota 7. Para aqueles que gostam do videogame como mídia capaz de contar excelentes histórias de forma diferenciada e que, além disso, se interessam pela temática tratada - a investigação de um sequestro e suas relações - Get Even é um jogo único que toma conta da mente do jogador. E mais do que isso, não se trata de uma história que apenas cumpre o prazer natural que temos ao experimentar uma história. Em todos os seus elementos narrativos, Get Even transcende o jogo como entretenimento, analisados com o devido cuidado, o enredo está cheio de crítica social. Tratando de assuntos sérios e importantes que até poderiam servir para belas aulas ajudando na educação.



VALOR NÃO AVALIADO

Mas nada disso aumenta a nota de Get Even, analisado unicamente como jogo de videogame obteve a nota 7 no agregado. Isso acontece sempre que um jogo tem um forte valor que não é avaliado (não soma nada na nota). É um dos casos que mostra que podemos encontrar jogos de verdadeiro impacto, excelentes, mesmo na nota 7, embora seja comum que, com essa nota, apresentem bastante divergências entre os usuários, alguns não vão gostar. Provavelmente, existe um 7 (ou vários) que você vai adorar! E até gostar mais do que jogos que recebem notas melhores. Essa descoberta é comum para praticamente todos os gamers que decidem experimentar jogos que pouca gente fala. Para isso, basta encontrar algum jogo que para você (subjetivamente) é muito interessante. Talvez esse jogo tenha até alguns defeitos, mas o seu lado bom é bom demais!


PONTO FORTE DE GET EVEN

No restante da postagem, vamos analisar esse conteúdo não avaliado, temas bem tratados que fazem a força de Get Even, mas, não aumentam em nada a sua nota. Se você gosta de narrativas complexas nos games, esse jogo polonês, pouco conhecido, pode te surpreender. Mas, se quiser evitar spoilers, é melhor jogar Get Even primeiro. Depois, retorne aqui para esclarecer alguns tópicos da crítica social e do simbolismo do jogo, pois são realmente interessantes. Se não se importar com alguns spoilers e estiver curioso, vamos em frente.


VIDEOGAME E CRÍTICA SOCIAL

Os colecionáveis de Get Even revelam uma crítica social em detalhes sobre corporações, indústria de armas, mercenários, ascensão profissional, manipulação e conflitos familiares. Get Even é um thriller psicológico com temas sensíveis que toca nos porões mais escuros da nossa sociedade.


ALERTA DE SPOILERS!



Escândalo Corporativo

Ascensão e queda de corporações e seus CEOs não por meios legais, através de concorrência, inovação e mérito dos serviços prestados, mas pelo roubo de tecnologia, sabotagem e espionagem industrial. Em um dos gatilhos para o desenvolvimento do enredo, um mercenário, Cole Black, é contratado para uma operação de infiltração na sede de uma indústria de armas, roubando uma tecnologia revolucionária, destruindo informações e vazando dados sigilosos. E-mails vazados expõem uma rede de contratos ilícitos, a indústria de armas invadida tinha entre seus clientes grupos terroristas.


Essa crítica social mostra dois riscos em relação ao setor polêmico das indústrias de armas caso não respeite o Estado de Direito. O primeiro diz respeito ao Capitalismo em geral: E se o lucro e a ascensão de uma empresa não vier da utilidade dos serviços prestados, mas da trapaça, de burlar o sistema e no caso, destruir a concorrência. O segundo risco é mais específico em relação às indústrias de armas: E se os contratos, o fornecimento de armamento de alta tecnologia envolver criminosos, terroristas, grupos paramilitares?


Polícia corrupta

Perícia criminal que negligencia dados para criar uma narrativa pública mais conveniente, esvaziando a pressão da mídia por uma apuração mais profunda que investigue temas sensíveis, problemáticos e perigosos. Pagos para não se aprofundar na investigação, forjam uma narrativa estereotipada de conflito entre traficantes em que tudo está esclarecido e sob controle. Dessa forma, se esquivando de investigar um caso muito mais polêmico. Neste caso, o mérito da crítica social não está em criticar uma polícia em específico, mas mostrar em uma narrativa fictícia o que pode acontecer se os responsáveis por investigar, a polícia, aceitarem corrupção e não investigarem coisa alguma.


Submundo dos Mercenários

O mundo dos mercenários, grupo armado que responde a um contrato de interesse privado, já carrega algum questionamento. Em oposição ao exército, que defende o Estado e responde a normas constitucionais e internacionais, os mercenários são mais difíceis de regularizar e culpabilizar por erros e crimes. Os colecionáveis de Get Even mostram como o universo dos mercenários pode conter problemas graves, muito além de questionamentos éticos e legais. A vida do mercenário fictício Jasper Prado é revelada em detalhes. Ex-soldado condecorado, chegou mesmo a se tornar tenente, dispensado do serviço militar, no entanto, empregou sua experiência em combate - teve um dos melhores treinamentos possíveis sendo um ótimo militar - para produzir um registro criminal considerável. Envolvido em sequestros, assassinatos e tráfico de drogas. Acabaria sendo vítima dos próprios meios, por causa de divergências, foi aprisionado e executado por seus próprios companheiros.



Vencer a qualquer custo

Será que vale a pena desrespeitar qualquer limite moral para a conquista de uma ambição profissional? Existe limite para “vencer a qualquer custo”? Para Rose Atkins, os fins justificam os meios de tal forma que sedução, manipulação, traição, jogo duplo e participação em sequestro e assassinato são recursos a serem empregados tanto contra aliados quanto contra inimigos. Desde que o objetivo seja um expressivo crescimento de reconhecimento, status e riqueza. Essa crítica têm dois méritos, o primeiro é questionar se vale tudo por dinheiro, status e poder. O segundo é perguntar se as pessoas têm valor em si ou se elas são apenas instrumentos para atingir objetivos de crescimento pessoal. Rose usou tudo que tinha, inclusive manipulou a vida de outras pessoas, tudo para vencer a qualquer custo. Mas acabaria derrotada quando descobrissem sua farsa.


Obsessão pela grandeza

A crítica social da ambição que busca “vencer a qualquer custo” aparece de forma ainda mais dramática no caso de Robert Ramsey. Sua invenção tecnológica Pandora / Savant, capaz de investigar a memória humana, era um feito tecnológico considerável, mas, investigando o passado, experimentou os traumas de sua ambição desmedida. As memórias trouxeram à tona como o seu plano de sabotagem da corporação rival resultou na trama que destruiria a vida de sua família. Ramsey planejou sua ascensão profissional roubando tecnologia da empresa rival. Destruiu seu concorrente, mas acabaria também destruindo a própria vida, pois o concorrente decidiu se vingar. Obcecado por crescimento, Ramsey foi se distanciando do cuidado com a família, além de deixá-la vulnerável, na mira do rival que queria feri-lo onde mais doesse. Não se ateve ao “conselho” do rival: “Todos nós perdemos coisas que amamos de tempos em tempos. Estime o que é importante.” Só quando era tarde demais, percebeu que havia perdido o que mais estimava, sua família, especialmente sua filha, por estar obcecado pela grandeza.


SIGNIFICADO DA ARTE DE GET EVEN

Se algumas reviews descontaram pontos de Get Even por causa de seu gráfico datado, inferior a jogos do mesmo período, existe uma coisa, apesar desse problema, que conta pontos a favor do jogo: seu simbolismo artístico que representa bem o teor da sua crítica social. O terror psicológico do jogo é uma figuração de seus temas tensos.



Terror real

O enredo complexo de Get Even se torna ainda melhor por causa de sua atmosfera audiovisual. O clima de terror e insanidade presente na maior parte do jogo não vem de entidades sobrenaturais como fantasmas, monstros ou demônios, mas do próprio horror causado pelos assuntos do jogo, assuntos reais como guerra, sequestro, trauma, traição, manipulação e execução. Na primeira parte do jogo, estamos na mente de Cole Black, ele está tentando se lembrar… E como mercenário e assassino de aluguel, ele tem coisas horríveis na memória. É por isso que Get Even tem um clima de terror psicológico, sem os grandes enfrentamentos dos jogos survival horror (sobrevivência ao horror), o propósito é apenas sentir a tensão de assuntos traumatizantes, o que se enfrenta está na mente: a memória do passado sombrio.


Sociedade insana

Neste sentido, sons e imagens servem de complemento à narrativa. Entre as memórias de eventos passados, que serão investigados durante o jogo, Black está em um “sanatório para tratamento”. Lá verá rastros, marcas e anotações de todo tipo de louco, não só pacientes, mas médicos também, talvez, ainda mais insanos. Esses sons e imagens de loucura combinam com as temáticas tratadas, a memória de Black preenche as lacunas com tons de horror, mostrando a insensatez e a crueldade da vida que viveu. Um mundo de mercenários, assassinatos, tráfico e criminalidade. Contratado para servir aos interesses pessoais de seu empregador, suas ambições resultam em tragédia para ambos. Ramsey, o empregador, destrói quem mais queria proteger, sua família. E Black, depois de tantos serviços sujos, acaba vítima de suas próprias ações. Tanto um quanto o outro se destroem em sua própria ambição e insanidade. Talvez o “sanatório para tratamento” seja um bom cenário para ambos.



O Mestre das Marionetes

Por fim, além do clima de terror e do simbolismo do sanatório, um terceiro elemento vem aumentar a qualidade audiovisual de Get Even: “o mestre das marionetes”. Figuras de marionetes, manequins e a menção ao mestre das marionetes (puppets e master of puppets) são onipresentes no sanatório, cenário entre as memórias. Se encontram em diversas posições, são mencionados em cantigas pelo sanatório, em textos, em piches nas paredes, em quadros, marionetes mudam de posição quando você não está vendo. Essa presença constante carrega um simbolismo, pois uma marionete é controlada pelo mestre das marionetes. Daí a questão: Black é controlado por Ramsey, seu empregador, ou Ramsey é que é controlado por Black, que conspira contra o patrão?


Embora o desfecho do jogo ofereça uma resposta para essa pergunta, talvez ela tenha um significado mais profundo para ilustrar a crítica social que o jogo contém. Já que controlar é ter poder, controle sobre, então: quem controla quem? Quem tentou controlar, no jogo, não acabou bem: Ramsey, Rose, Howard e Black, todos vítimas da própria manipulação. Talvez a resposta seja que o próprio sistema que os personagens tentam controlar, como que toma vida, os manipula e, por fim, os destrói.


É por isso que Get Even é um jogo nota 7 surpreendente, porque nada de sua crítica social e simbolismo artístico, apesar de tratar de temas super importantes, agrega nota alguma. Muitas vezes, certos jogos tem alguns defeitos, que não lhes rendem uma nota muito alta, mas o tanto que tem é exatamente aquilo que gostamos muito. E você, já encontrou um jogo nota 7 que, para você, é muito especial?


O VIDEOGAME COMO ARTE E JOGO

O GamesVida é o trabalho de Gustavo Campos de Carvalho, bacharel em História pelo IFCH-Unicamp. Seu objetivo é mostrar a riqueza do mundo dos games, explicando sua qualidade em termos de Jogo e Cultura. Aqui, os jogos eletrônicos são estudados na sua totalidade, o site conta com materiais de “Educação com Videogames” e análise de diversos elementos relacionados aos games. É o videogame investigado como Arte. Para acesso rápido, fácil e organizado a todo o conteúdo do site consultar o seguinte link: Mapa do GamesVida.


[GAME OVER]

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